No Nepal encontrei um verdadeiro testemunho dos movimentos de populações, étnica e culturalmente falando. O assunto é de grande fôlego, impossível de ser alcançado sem um bom estofo de pesquisa, desde os bons livros da antropologia clássica até os modernos trabalhos da geografia humana. Assim, destituído de tais fontes, vou me limitar a uma impressão que se destacou: os traços hindus mesclados às características asiáticas do leste resultam numa confluência similar àquela verificada muitos séculos depois entre os ibéricos e o indígenas americanos.
Afinal, qual a relevância das presentes constatações? Para minha experiência pessoal se destaca o falseamento de uma hipótese: a existência de um conjunto de características físicas estanque em rincões tradicionais. Nisto tinha um interesse específico, quando pensava em desenvolver uma técnica para elaborar "retratos falados" de personagens históricos tão somente à partir de suas bases populacionais... Impossível! Conquanto já tivesse abandonado meus ímpetos cartesianos para a produção plástica, fato é que "não há um tipo humano específico deste ou daquele lugar"... e, mais, "os movimentos determinaram e determinam mesclas étnicas e culturais constantes".
Este blog registra caminhos, culturas, personagens e impressões vivenciados durante um período sabático empreendido com o intento de conhecer os efeitos do nomadismo na experência humana. Seguramente se trata de repertório parcial, vinculado a escolhas acumuladas durante uma história pessoal pautada por descontinuidades e rupturas contundentes.
quinta-feira, 13 de outubro de 2011
IMAGENS E SEMELHANÇAS
quarta-feira, 12 de outubro de 2011
segunda-feira, 10 de outubro de 2011
sábado, 8 de outubro de 2011
terça-feira, 4 de outubro de 2011
EVEREST
Parti para Lukla num vôo impressionante, bordeando montanhas e serpenteando desfiladeiros. O pouso, quase insólito: uma pista em aclive (para auxiliar na frenagem!), com a cabeceira num precipício e o fim em um paredão de granito... o piloto era dos bons (ouvi dizer que os melhores do Nepal estão nessa linha).
Comecei a caminhar, sem guia ou carregador, às 10h, meio tarde para tentar qualquer proeza. Encantei-me com a trilha, com grotas vales, vegetação exuberante, cachoeiras, casas/vilarejos sherpas e, por óbvio, muitos deles repetindo o seu simpático "namastê". O aproveitamento do solo agricultável, então, merece todas as reverências.
Por volta das 14h passei por Phakding e resolvi buscar abrigo 4 Km depois, num belo local, com uma cascata e um rio ligeiro no fundo. Às 16h, já instalado.
O segundo dia foi de boa caminhada. Paisagem exuberante... e consegui avistar o Everest! (imponente como eu imaginava). Ao chegar em Namche Bazaar fiquei impressionado. Uma estrutura formidável, num lugar onde não há maquinários para ampliar a força de trabalho, quando muito no transporte, pois, eventualmente, usam a tração animal.
Estava convicto de não me estender muito no trekking. Acabei balançando um pouco quando, no café da manhã, um indiano me disse que iria até Kala Pattar em três ou quatro dias (o indicado é sete ou oito). De pronto constatei que o caminho é difícil e proporciona claros efeitos da altitude (lembrei um pouco do meu primeiro Caminho Inca). Quando parei para almoçar, comentei que cheguei a pensar em fazer o roteiro mencionado pelo amigo hindu... Os sherpas, guias e portadores no recinto, me desaconselharam e frisaram: "só de você quiser ganhar o direito de voltar com o helicóptero de resgate...".
Retomei a caminhada, sem a menor pretenção de atos heróicos. Passei por Tengboche, onde existe um importante e calmo monastério budista (um daqueles que esperava encontrar no Tibet)...
No caminho de volta a grata surpresa de ver o Lhotse e o Everest. Foi um presentaço, pois senti que cumprira a missão que me propusera: uma breve prospecção na trilha por onde passaram os grandes mitos do alpinismo mundial.
quinta-feira, 29 de setembro de 2011
MEMÓRIAS DO CÁRCERE
Aos oito anos, numa tarde de domingo, quando indagado o que queria ser no futuro, respondi, sem titubear, monge no Tibet (meu pai ficou perplexo, e, possivelmente, o assunto rendeu uma boa prosa do casal no mesmo dia). Influenciado pelo protagonista da série Kung-Fu, não raro era encontrado atrás da porta, em posição de lótus, buscando um tosco processo meditativo; desse caldo surgiu a vontade de conhecer o Tibet e o universo budista. Fato é, que estando no Nepal ficou muito oportuno ver de perto o que fizera os sinos dobrarem há mais de três décadas ( por óbvio, não mais com o intento de tornar-me um seguidor de Sidhartha).
A travessia da fronteira implicou no submetimento às regras da República Popular da China. E, de pronto, o guia nos advertiu: nada de indagações políticas. Uma paisagem exuberante, viabilizando imagens com perfeitas projeções em perspectiva.
Diversos povoados às margens da rodovia aguçavam a vontade de se aproximar da cultura campesina. Mas a expedição cingia-se a estreitos limites, como que em um corredor das modernas casas prisionais; uma estreita faixa para se movimentar, cuja transposição pode representar sérios problemas. De tais impressões intuí que estava em um cárcere, o que motivou o título deste texto.
O Tibet vive num regime de semi-liberdade, com as estruturas administrativas estrategicamente situadas. Sob o comando da República Popular da China, desde 1959, a nação se submete a herméticas regras de comunicação e, mais grave ainda, de trabalho.
Nas cidades restam aos tibetanos precárias ocupações como ocorre a imigrantes clandestinos no ocidente. Mas que urbes são essas? Grandes estruturas de concreto erigidas por investidores chineses, com policiamento ostensivo, requintes do grande "panóptico" em que me enfiei.
E por que o budismo é ainda permitido? O culto fervoroso é estratégico na sociedade de controle, pois mantém os ânimos focados em outro plano. Ademais, a proibição poderia gerar uma revolta incontrolável. Em suma, outro instrumento de poder muito bem utilizado.
Templos, monastérios, estupas... Palácio Potala (residência do Dalai Lama antes da diáspora). Magníficos exemplos arquitetônicos e cenário da mais forte devoção que vi até hoje (talvez um pouco demasiada para os padrões ocidentais, mas dotada de um inocência iluminada).
O regime nos monastérios pareceu-me quase militar. Proporcionaria também uma limitação à liberdade? Difícil adentrar no campo da fé alheia. Posso dizer que existe voluntariedade nos que ali estão e nenhuma força externa deveria interferir em tal processo cultural.
Os sete dias no Tibet derrubaram dois antigos mitos que guardava: o socialismo chinês e a vida monástica budista. Se não tivesse desistido há décadas de estar dentro da veste ocre, a viagem seria a pá de cal no infante projeto, por um só motivo: gosto da liberdade. Quando novamente pisei em solo nepalense nem me importei com a chuva e algumas dificuldades, pois, como diria Luther King, "Eu prefiro na chuva caminhar...".