domingo, 15 de maio de 2011

VIGO - UMA LEITURA ARQUEOLÓGICA

O grande mestre Igor Chmyz afirmou uma vez que o bom local de hoje para instalações humanas também o foi no passado... E é uma verdade observável em Vigo. Muito antes de os romanos chegarem por aqui, a civilização "galaica" estabelecera-se em suas vilas com casas de pedras, que foram escavadas e receberam uma reconstituição exemplar.
Cabe aqui uma incipiente indagação dentro do tema nomadismo:  o que faz o ser humano se estabelecer? Conforto, estabilidade... Várias respostas possíveis. Mas, também, é de se concluir, em certos casos, isto gera a cobiça do "outro" na disputa territorial. E assim foi com os "castro galaicos", que, depois de intercambiarem com fenícios, celtas e outros povos, tiveram seu espaço ocupado e cederam a outros processos culturais.






VIGO

Perdi o trem para Viana e ganhei um grande presente: passear por Vigo - linda cidade, com um povo muito amável. A Galícia faz com que me sinta em casa!




FINISTERRA EM REVISTA

O fator mais tenso da peregrinação/andança seguramente foi a tendinite, que incomodou muito, principalmente porque poderia implicar na interrupção do projeto nômade... Mas dessa adversidade vieram resultados muito positivos: aprendi a respeitar os meus limites e a cuidar de mim; conheci o Sasaki, com quem conclui o caminho até Santiago de Compostela; encontrei "Lobo", uma figura mítica de uns 80 anos (que há 15, depois de fazer o Caminho, recebe pessoas e as ampara no albergue municipal de Astorga)...
"Lobo" me premiou com as seguintes reflexões: "o Caminho é uma vida livre"; "o peregrino não tem nenhuma obrigação, exceto respeitar o descanso dos demais peregrinos" (fantástico e quase kantiano - próprio de um alemão); e, por derradeiro, "muito antes do cristianismo, os celtas faziam o caminho até Finisterra para seus rituais druídicos". Desde então reascendeu a vontade de ir até Finisterra, que, embora no meu plano inicial, estivera dormente por um bom tempo... (Mas somente iria se não me sentisse obrigado a tal, pois seguiria o enigma da enfinge "Lobo").
Ao chegar em Santiago de Compostela, depois de receber a "Compostela" (o "diploma" do peregrino), senti que faltava algo (90 Km, talvez?!...). No dia seguinte veio a grande motivação: fui lembrado pela Vera (amiga e anjo da guarda) que era dia das mães e seria oportuno lembrar dos ensinamentos da "Grande Mulher". Foi inevitável associar os 79 anos que a Dna. Alzira viveu pelos próprios esfoços, equivalente, na minha analogia, a 790 Km de caminhada até a Catedral de Compostela (vide texto: UM CAMINHO, UMA VIDA), o que não é pouco. Então, lembrei que a guerreira foi além, até o último sopro de vida... Somente em Finisterra poderia fazer uma homenagem à altura.
Tenho que confessar que no segundo dia de caminhada, tendo percorrido uns 40 Km, pensei em desistir. Inclusive imaginei o que a Dna. Alzira diria para mim: chega, filho; você não é burro de carga... e daí por diante (ela pegava pesado e batia no ponto). Mas eis que aparece outra figura no Caminho, Oclair, um brasileiro bom de passo (mais uma vez o Caminho presenteando novos amigos).
Os últimos quilômetros foram eletrizantes. Quando vimos o mar, berramos como loucos... Faltando 3 Km, caminhávamos a uns 7 por hora... Víamos o farol, mas o "bicho véio" não chegava nunca... As plantas dos pés chegavam a arder (só naquele dia, 11 de maio, foram 35 Km)...
Chegamos, fomos até onde a perna permitiu (Oclair foi até a água - manobra ousada...). Show! Agora sim, missão cumprida. E vendo o sol se por no mar... FIM, fim da terra, Finisterra (ou, em galego, Fisterra). Agora só a nado... E, aqui, lembro a grande lição da Dna. Alzira: "Dar o melhor de si, até o final".